Quando o assunto é economia, o jornalista Vicente Nunes é considerado uma das melhores fontes de notícias em primeira mão na capital federal. À frente do Blog do Vicente, o repórter do Correio Braziliense frequentemente traz informações privilegiadas sobre decisões importantes do Banco Central e do Ministério da Fazenda. Formado pela Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro, Vicente Nunes já escreveu para o Jornal do Commercio, O Globo, Jornal do Brasil, Agência Estado e Gazeta Mercantil. Em sua segunda passagem pelo Correio Braziliense, Vicente já atuou como correspondente em Nova York, quando teve a oportunidade de cobrir os atentados de 11 de setembro de 2001 – segundo ele, a mais rica experiência de sua vida profissional. De volta ao Brasil em 2002, passou a atuar como repórter especial. E, desde o ano passado, mantém também o Blog do Vicente, que ele considera "um desafio e tanto".
Em entrevista exclusiva ao Alternativa Brasil, Vicente Nunes comenta sobre o excepcional momento econômico atual. Para ele, a crise atual é bem mais ampla que a de 1929, exigindo uma ação coordenada dos governos. Vicente elogia as medidas de injeção de liquidez tomadas pelo Banco Central, mas critica o corte de impostos setorial e, principalmente, o uso político das metas de inflação, aliado ao crescimento dos gastos públicos para beneficiar a candidatura de Dilma Rousseff. "Há uma bomba sendo armada", diz ele.
ALTERNATIVA BRASIL - Na sua opinião, a crise financeira mundial já ultrapassou sua fase mais aguda ou estamos ainda no meio do furacão?
VICENTE - Eu acredito que pelo menos ao fundo do poço nós já chegamos, o que é bom, pois permite descobrir qual foi o tamanho do estrago. Mas ainda vamos ter muita notícia ruim pela frente. Enquanto a economia dos Estados Unidos não mostrar que realmente está se recuperando, o mundo vai sofrer, incluindo o Brasil. É verdade que o Brasil está melhor preparado para sair da crise, e está fazendo isso aos poucos. Contudo, não dá para descolar os pés da realidade.
ALTERNATIVA BRASIL - Você concorda que vivemos um cenãrio "desenvolvimentista" na economia, a exemplo do que aconteceu nos anos seguintes à crise de 1929? O auxílio estatal a empresas privadas em dificuldades, como fez o governo americano com bancos e montadoras, pode piorar a situação no médio ou longo prazo?
VICENTE - A crise de hoje é muito mais ampla do que a de 1929. E, sem dúvida, exige uma ação coordenada dos governos. Uma onda de quebradeira de bancos e de empresas seria uma calamidade, levaria o mundo para a mais profunda depressão. Agora, é preciso criar condições para que as empresas e os bancos socorridos possam caminhar rapidamente com pernas próprias, seja cortando custos, seja fechando unidades que não dão lucro. A GM surpreendeu todo mundo nos últimos dias ao suspender rapidamente sua concordata. Um ótimo sinal. Outro ponto fundamental será a maior regulação do sistema financeiro mundial. Não há mais como os govermos permitirem que se repitam as estripulias que levaram o mundo ao atual desastre.
ALTERNATIVA BRASIL - A reação do governo brasileiro (especialmente do Banco Central) à crise tem sido adequada?
VICENTE - Creio que sim. As medidas de injeção de liquidez adotadas pelo Banco Central logo depois da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, foram fundamentais para evitar uma quebradeira no sistema financeiro e para destravar o crédito. O BC supriu os bancos tanto em reais quanto em dólar, evitando que houvesse um estrangulamento, sobretudo, nas linhas de comércio exterior. Também o Ministério da Fazenda agiu, cortando impostos para incentivar o consumo. O problema foi que a Fazenda favoreceu setores específicos, criando mais distorções na economia. O certo seria um corte linear de tributos, pois favoreceria todos os segmentos econômicos. Outro fato que me incomoda é a contratação de gastos permanentes, como o aumento do funcionalismo público, sem a contrapartida de cortes em outras despesas com a máquina. Isso custará caro ao próximo governo.
ALTERNATIVA BRASIL - Em seu blog, você tem criticado a postura "política" do Conselho Monetário Nacional, no tocante à mudança nas metas de inflação para 2010/2011. Em que medida você acredita que elementos políticos, tais como a candidatura de Dilma Rousseff, podem prejudicar a condução da economia nesses últimos 18 meses do governo Lula?
VICENTE - O governo perdeu uma excelente oportunidade para reduzir a meta de inflação do país, de pelo menos 4,5% para 4%. Com a atividade mais fraca, com a capacidade ociosa da indústria, não há pressões inflacionárias à vista nos próximos dois anos. A hora de mudarmos de patamar na inflação era agora. O governo quis tanto que o Banco Central baixasse os juros. Estamos com uma taxa de um dígito (9,25% ao ano), algo histórico. Então, por que tambem não reduzir a meta de inflação? Um índice de 4,5% é altíssimo. Ao manter essa meta, o governo incentiva os formadores de preços a fixarem esse número como patamar mínimo para a correção de suas tabelas, autoalimentando a inflação. Memso sabendo disso, o governo justificou que os 4,5% eram a melhor alternativa para a meta de 2011, pois evitará que o BC aumente os juros no ano que vem, ano de eleições. Veja que combinação perigosa: meta de inflação acima da média mundial e gastos públicos crescentes para incrementar a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Há uma bomba sendo armada.
ALTERNATIVA BRASIL - Como você analisa as medidas do governo para aquecer a economia - por exemplo, a redução de IPI para automóveis e o incentivo ao financiamento imobiliário, por meio do programa Minha Casa, Minha Vida?
VICENTE - Não há dúvidas que as internvenções feitas pelo governo na economia logo depois do estouro da crise foram importantes. Mas, de novo, melhor do que reduzir impostos setorialmente, seria melhor dar um alívio a todos dos setores, o que seria perfeitamente viável graças à carga recorde de tributos do país. Quanto ao Minha Casa, Minha Vida, ainda não acredito que sairá efetivamente do papel. E temo que todos os riscos dos financiamentos para a baixa renda se concentrem na Caixa Econômica Federal. A conta pode cair, novamente, no colo do Tesouro. Ou seja, no de todos nós.
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