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Demetrio Carneiro

demetrioccunhaoliv@gmail.com
Brasilia, DF, 59, graduado em economia, especialista e pesquisador em políticas públicas, professor universitário, coordenador de EAD da Fundação Astrojildo Pereira.


Existe, ainda, uma utopia socialista possível?


19 de abril de 2009




Leia mais: Utopia socialista socialismo Estado e socialismo militância socialista

Por:
Existe, ainda, uma utopia socialista possível?
Thomas More


A utopia socialista é, antes de tudo uma utopia humanitária.
Foi essa a força capaz de trazer à luta social milhões de pessoas. Mas é humanitária em que bases? Primeiro na visão da equidade de oportunidades, mas uma equidade que possa ser corrigida em função da assimetria dos acessos às oportunidades. Segundo, a visão da potencialidade, do ambiente que viabilize o pleno desenvolvimento de todas as potencialidades positivas existentes em cada ser humano.
No longo caminho da história, pelas necessidades imediatas de poder, essas utopias foram sendo deixadas pelo caminho e substituídas por questões mais "práticas"no sentido de respostas ao poder imediato.
Estabelecida a utopia fica a questão da chegada. Ou seja: ainda acreditamos na capacidade de transformação ou não? Ainda acreditamos que somos sujeitos do processo histórico ou não?
Para Marx a resposta foi mais fácil: A classe operária lidera o processo, levada a ele pelas contradições do capitalismo no campo da apropriação privada do trabalho coletivo. A história se encarregou de mostrar que a classe operária podia ser cooptada pelo sistema e que ela podia deixar de ser o agente dinâmico das transformações sociais por conta das mudanças geradas pelo processo de produção intensiva.
Se o sujeito ainda é capaz de mover a sociedade na direção de uma utopia, quem é esse sujeito?
Extinta a possibilidade da hegemonia, na realidade percebida a questão básica da democracia que é o direito da minoria e não das maiorias, o que resta é dar ao conjunto, a todos, esse papel. Ou seja, o movimento que leva para a utopia e a transforma em realidade é um movimento a ser feitos por todos e todas ou não será feito por ninguém. Nesse processo "aberto" cada um chegará lá do seu jeito, não haverá um líder genial ou um grupo dedicado ou uma classe hegemônica. Da mesma forma não haverá uma "chegada" que se possa dizer "apartir de hoje estamos no socialismo". O que estamos procurando é uma obra coletiva que irá se construindo sempre nesta direção, por ato de vontade de cada um. A utopia socialista mais que um fim passa a ser um processo em construção permanente, a ser produzido todo o dia. Não é fé, pois não joga para o abstrato do futuro. Joga para o hoje. A produção do socialismo é de cada um e é aqui e agora, hoje.
Como parte da dinâmica estamos falando de leitura convergente e direito de dissidência que deve ser uma única norma. Como a democracia, o socialismo também é o processo e dentro dele essa visão de democracia, convergênciaxdissidência, é um dos cimentos.
No fim do dia não somos sujeitos perfeitos, mas sujeitos que buscam algum grau de perfeição para que sejam, eles os sujeitos, aquilo que podem ser.
Este projeto de socialismo se realiza por contaminação e seu objeto principal não é o Estado, que pode ser um veículo, mas as pessoas. Se elas não forem inclusas no processo nada se fará. Isso dá um papel ao partido político que não é apenas o de estar no comando do Estado. De fato estar no comando é insuficiente e não diz muito. Estar no Estado tem que ser resultado desta visão de processo e significa fazer o Estado completamente permeável à participação de todos e todas. Significa o nosso compromisso de democratização do Estado que não é, como a democracia, o fim, mas apenas o meio.
O projeto social democrata não avançou porque era filho da mesma visão do socialismo passado de que cabia a um grupo e apenas a ele a liderança do processo.
Em muito sentidos esta utopia já contaminou a sociedade moderna. Nossa própria constituição já se preocupa em uma leitura sobre as assimetrias ou na questão dos conselhos paritários. Empresas se preocupam com a questão da responsabilidade social e não apenas por mídia. É muito pouco perante a multidão de problemas derivados da concentração de poder, formal, e renda, poder real, mas são passos na direção correta.
Enfim, existe, na minha opinião, uma utopia possível e existem os meios de caminhar na direção dela. Evidentemente, no campo prático, isto implica em entender os limites da ação do Estado, a necessidade de incorporar o mercado, não como algo a ser extinto, mas como algo a ser compreendido e inserido no processo e principalmente implica em entender que as pessoas são o objeto primeiro e não o poder, que é o meio de realizar o processo que se quer.

 

 

Categorias: Política

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